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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Política divina - Vinha de Luz - Capítulo 59

"Eu, porém, entre vós, sou como aquele que serve"
Jesus (Lucas, 22: 27)"


O discípulo do Evangelho não necessita respirar o clima da política administrativa do mundo para cumprir o ministério que lhe é cometido.

O Governador da Terra (1), entre nós, para atender aos objetivos da política do amor, representou, antes de tudo, os interesses de Deus junto do coração humano, sem necessidade de portarias e decretos, respeitáveis embora.

Administrou servindo, elevou os demais, humilhando a si mesmo.

Não vestiu o traje do sacerdote, nem a toga do magistrado.

Amou profundamente os semelhantes e, nessa tarefa sublime, testemunhou a sua grandeza celestial.

Que seria das organizações cristãs se o apostolado que lhes diz respeito estivesse subordinado a reis e ministros, câmaras e parlamentos transitórios?

Se desejas penetrar, efetivamente, o templo da verdade e da fé viva, da paz e do amor, com Jesus, não olvides as plataformas do Evangelho Redentor.

Ama a Deus sobre todas as coisas, com todo o teu coração e entendimento.

Ama o próximo como a ti mesmo.

Cessa o egoísmo da animalidade primitiva.

Faze o bem aos que te fazem mal.

Abençoa os que te perseguem e caluniam.

Ora pela paz dos que te ferem.

Bendize os que te contrariam o coração inclinado ao passado inferior.

Reparte as alegrias de teu espírito e os dons de tua vida com os menos afortunados e mais pobres do caminho.

Dissipa as trevas, fazendo brilhar a tua luz.

Revela o amor que acalma as tempestades do ódio.

Mantém viva a chama da esperança, onde sopra o frio do desalento.

Levanta os caídos.

Sê a muleta benfeitora dos que se arrastam sob aleijões morais.

Combate a ignorância, acendendo lâmpadas de auxílio fraterno, sem golpes de crítica e sem gritos de condenação.

Ama, compreende e perdoa sempre.

Dependerás, acaso, de decretos humanos para meter mãos à obra?

Lembra-te, meu amigo, de que os administradores do mundo são, na maioria das vezes, veneráveis prepostos da Sabedoria imortal, amparando os potenciais econômicos, passageiros e perecíveis do mundo; todavia, não te esqueças das recomendações traçadas no Código da Vida eterna, na execução das quais devemos edificar o Reino divino, dentro de nós mesmos.



(Vinha de Luz, de Chico Xavier/Emmanuel. 1a edição. 2014. Federação Espírita Brasileira)

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Nota:

(1) Governador da Terra: Jesus. No Espiritismo, Jesus é repetidas vezes referido como o "Governador da Terra."

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Sabedoria Antiga - Capítulo 4 - O Plano Mental - Parte 04

Capítulo IV - O Plano Mental - Parte 04

<<< VER CAPÍTULO ANTERIOR

Passemos, agora, ao estudo do Pensador (a) e seu veículo, tal como se encontram no homem vivo sobre a terra. Designemos com o nome de "corpo mental" o corpo cuja consciência está revestida e condicionada às quatro subdivisões inferiores do plano mental. Este corpo é constituído por combinações da matéria das mesmas subdivisões.

Quando uma nova encarnação se prepara, o Pensador, o Indivíduo, que é a alma humana verdadeira (cuja afirmação será explicada no fim deste capítulo), faz irradiar uma porção de sua energia em vibrações que tecem em torno de si um invólucro de matéria retirado das quatro subdivisões inferiores de seu próprio plano. A matéria atraída corresponde à natureza das vibrações mais rápidas, e tomam forma sob sua influência. As combinações mais grosseiras respondem às vibrações mais lentas; como um fio metálico que vibra espontaneamente em resposta a outro fio tendo o mesmo peso e a mesma tensão, mas que permanece mudo no meio de notas de fios diferentes, a matéria das diversas ordens ajusta-se e acomoda-se a diversos gêneros de vibrações. A natureza do corpo mental com que o Pensador se envolve será exatamente determinada pelas vibrações por ele emitidas. E este corpo é chamado "mental inferior", porque é constituído pelo Pensador, revestido da matéria das subdivisões inferiores do plano mental e sujeito às condições desta matéria em suas operações ulteriores.

Todas as energias sutis demais para mover esta matéria, excessivamente rápidas para dela obter uma resposta, não poderão exprimir-se através dela. O Pensador é, pois, forçosamente limitado, condicionado, reduzido às suas próprias expressões. É esta a primeira das prisões em que se encerra durante a sua vida na terra. E enquanto essas energias atuam nele, permanece ele excluído do seu mais elevado mundo, porque suas atenções se dirigem para o exterior, e sua vida é projetada com ele do corpo mental inferior, muitas vezes designado pelos termos de estojo, veículo, roupagem - expressões que têm por fim fazer compreender que o Pensador não é o corpo mental, mas forma este corpo e dele se serve para exprimir tudo que pode executar de si mesmo na região do mental inferior.

É necessário não esquecer que as energias do Pensador, continuando o seu processo de exteriorização, atraem em seguida, em torno de si, a matéria mais grosseira do plano astral para formar o seu corpo astral, e que, durante a sua vida na carne, as energias, manifestadas através das vibrações inferiores da matéria mental, são tão facilmente convertidas por ele em vibrações mais lentas, sincrônicas com as da matéria astral, que os dois corpos vibram continuamente em harmonia, interpenetrando-se um ao outro. Quanto mais grosseiras são as combinações de matérias assimiladas pelo corpo mental, tanto mais esta união se torna íntima, de tal modo que os dois corpos são às vezes classificados conjuntamente ou mesmo considerados como um veículo único (1). Quando abordarmos o estudo da reencarnação veremos que este fato em uma importância capital.

O tipo do corpo mental que a alma engendra em sua descida a uma encarnação nova é determinado pelo grau de evolução alcançado por ela mesma.

Assim como fizemos no estudo do corpo astral, poderemos examinar sob o ponto de vista do corpo mental três tipos de homem diversamente evoluídos: a) um indivíduo não evoluído; b) um indivíduo de desenvolvimento médio; c) um homem espiritualmente desenvolvido.

a) No indivíduo não evoluído, o corpo mental é pouco perceptível, porque é representado, apenas, por uma pequena quantidade de matéria mental sem organização precisa, tirada sobretudo das mais baixas subdivisões do plano. A influência que recebe é quase exclusivamente dos corpos inferiores. As tormentas astrais desencadeadas pelo contato dos objetos sensíveis determinam nele vibrações ainda pouco intensas. Quando não é estimulado por estas vibrações astrais, permanece inerte; e responde com indolência à excitação. Não possui interiormente nenhuma atividade definida: somente os choques do mundo exterior podem despertar uma resposta distinta. E tanto mais concorrem para o seu progresso quanto mais violentos forem, pois cada vibração que emitem apressa o desenvolvimento embrionário do corpo mental. Os prazeres tumultuosos, a cólera, o ódio, o sofrimento, o terror, todas as paixões, que produzem turbilhões intensos no corpo astral, suscitam fracas vibrações na matéria do corpo mental. Estas vibrações provocam um começo de atividade na consciência mental, e a conduzem gradualmente a acrescentar alguma atividade própria às impressões recebidas de for. Já vimos que o corpo mental é tão ligado com o astral como se ambos agissem como um corpo único. Mas as faculdades mentais nascentes dão às paixões astrais uma certa força e uma certa qualidade, que absolutamente não aparecem quando estas paixões agem como forças puramente animais. As impressões sobre o corpo mental são mais permanentes que as produzidas sobre o astral, e o mental as reproduz conscientemente. Assim começam a memória e a faculdade da imaginação. Esta faculdade se organiza gradualmente, à medida que as imagens do mundo exterior atuam sobre a substância do corpo mental e modelam a substância mental à sua própria semelhança. Estas imagens, nascidas dos contatos dos sentidos, atraem em torno delas a matéria mental mais grosseira, e podem ser reproduzidas à vontade pelos poderes nascentes da consciência. Esta reserva de imagens acumuladas tende a estimular a atividade gerada interiormente mediante o desejo de experimentar ainda uma vez mais, por meio do órgãos exteriores, as vibrações que deixaram uma recordação agradável e evitar as que provocaram um sofrimento.

O corpo mental começa desde então a excitar o corpo astral, e a reanimar nele os desejos que no animal dormitam enquanto não são despertados por uma excitação física. Eis  por que encontramos no homem pouco evoluído uma contínua preocupação de gozos não observados nos animais: a cobiça, a crueldade, uma astúcia que o reino inferior absolutamente não conhece. Os poderes nascentes do pensamento, adstritos ao serviço dos sentidos, fazem do homem um bruto infinitamente mais perigoso e mais feroz que qualquer animal, e as mais profundas e sutis forças inerentes ao espírito-matéria mental emprestam à natureza passional uma violência e uma acuidade que não encontramos nas espécies inferiores. Mas estes excessos trazem em si mesmos, graças aos sofrimentos de que são a causa, o germe de sua própria correção.Estas experiências penosas agem sobre a consciência, despertando nela imagens novas, com as quais a imaginação trabalha. A consciência é assim levada a resistir a certas vibrações que lhe chegam do mundo exterior por intermédio do seu corpo astral.

Começa a desenvolver sua vontade reprimindo os transportes e impulsos das paixões, em vez de lhes dar livre curso. Estas vibrações de resistência, uma vez postas em jogo, atraem do corpo mental combinações mais sutis de matéria mental, e levam-no ao mesmo tempo a expulsar as combinações mais grosseiras que vibram em resposta às notas passionais que agitam o corpo astral.

Graças a esta luta entre as vibrações provocadas pelas imagens passionais e as vibrações contrárias devidas à reprodução imaginativa de pesadas experiências dolorosas, o corpo mental se desenvolve. Começa a adquirir uma organização nítida, exercendo uma iniciativa cada vez maior diante das atividades exteriores. Se a vida terrestre é usada para armazenar experiências, a vida intermediária é empregada em assimilá-las, como veremos em detalhe no capítulo seguinte. De sorte que, em cada nova volta à Terra, o Pensador fica de posse dum estoque mais considerável de faculdades para a construção de seus corpo mental. Assim o homem não evoluído, cuja inteligência é escrava de suas paixões, se transforma em um homem medianamente evoluído, cuja inteligência é um campo de batalha - campo de batalha onde as paixões e os poderes mentais lutam com probabilidades diversas, com forças mais ou menos iguais. Durante este tempo, o homem evolui gradualmente para o completo domínio da sua natureza inferior.

b) - No homem medianamente evoluído, o corpo mental tem dimensões maiores. Revela já uma certa organização e encerra proporções suficientes de matéria tirada da segunda, terceira e quarta subdivisões do plano mental. A lei geral que preside toda a construção do corpo mental, assim como sua transformação, poderá ser aqui estudada com proveito, embora ainda se baseie no mesmo princípio que os reinos inferiores nos mostraram em suas operações no mundo físico e astral. O exercício desenvolve, mas a inércia atrofia e acaba por destruir. Cada vibração suscitada no corpo mental determina uma modificação em seus elementos constituintes. Na região afetada, a matéria que não pode mais vibrar em uníssono é rejeitada e substituída por matérias convenientes, tiradas das reservas verdadeiramente inesgotáveis que se encontram ao redor. Quanto mais um conjunto de vibrações se repete, tanto mais se desenvolve a região do corpo mental afetada; daí, seja dito de passagem, o mal em fazer uma especialização exagerada das energias mentais. Este erro de método na utilização das forças determina um desequilíbrio, um desenvolvimento desigual do corpo mental. Há tendência à pletora na região continuamente excitada e tendência à atrofia nas outras regiões talvez tão importantes. O ideal a alcançar é um desenvolvimento geral, harmonioso e proporcional. Para isto, é necessária uma análise calma de si mesmo, assim como uma adaptação precisa dos meios aos fins visados.

O conhecimento desta lei permite explicar certas experiências bem conhecidas e fazer nascer a esperança dum progresso infalível. Quando um estudo novo é empreendido, ou quando uma profunda mudança se opera para mais alta moralidade na existência, as primeiras  etapas são eriçadas de dificuldades e, por vezes, o esforço é abandonado porque os obstáculos parecem insuperáveis. No início de um novo empreendimento mental qualquer, todo o automatismo do corpo mental se mete de permeio. Estes materiais, acostumados a vibrar de certa maneira, não podem adaptar-se a novas impulsões. O primeiro passo da empresa consiste essencialmente em despender esforços que, a princípio, nada conseguem modificar, porque não provocam no corpo mental vibrações concordantes.

Estes esforços são apenas a preliminar indispensável de toda a vibração harmônica, porque tendem a expelir do mental os antigos materiais refratários, para nele incorporar combinações simpáticas. Durante este tempo não se é consciente de nenhum progresso, apenas tem-se consciência de que os esforços são frustrados, pois vêm chocar a resistência inerte que encontram.

Mas no fim de algum tempo, persistindo, os materiais ulteriormente atraídos começam a entrar em ação, e os esforços são um pouco melhor recompensados.

Finalmente, quando todos os materiais antigos são expulsos e os novos já funcionam, o homem sente que seus desígnios estão sendo bem sucedidos. O período verdadeiramente crítico está no começo. Mas se tivermos confiança na lei - tão infalível em suas operações como todas as outras leis da natureza - e se renovarmos com persistência os nossos esforços, devemos ser necessariamente bem sucedidos. O conhecimento deste fato pode servir-nos de estímulo no meio das atribulações que, sem isto, nos deixariam nas garras do desespero.

Eis, pois, como o homem medianamente desenvolvido pode prosseguir os seus esforços, descobrindo com alegria que, à medida que resiste firmemente às solicitações de sua natureza inferior, estas perdem o poder sobre ele, porque expulsa de seu corpo mental todos os materiais capazes de dar lugar a vibrações afins. O corpo mental consegue gradualmente não encerrar senão as combinações mais sutis das quatro subdivisões inferiores do plano mental; torna-se então de forma irradiante e admiravelmente belo.

c) - O homem espiritualmente desenvolvido.

Deste corpo, todas as combinações mais grosseiras já foram eliminadas, de forma que os objetos dos sentidos aí não encontram mais materiais capazes de responder simpaticamente às suas vibrações. (Vimos que o mesmo se passa no corpo astral correspondente.) Este corpo mental não encerra senão as notas mais sutis, combinações pertencentes a cada uma das quatro divisões do mundo mental inferior; demais, as substâncias do terceiro e quarto subplanos preponderam sobre as dos dois primeiros. Esse corpo é, pois, sensível a todas as operações superiores do intelecto, às impressões delicadas das artes elevadas, às puras vibrações das emoções sublimes. Um tal corpo permite ao Pensador que dele se reveste exprimir-se muito mais plenamente na região mental inferior, como também nos mundos astral e físico. Seus materiais são capazes de responder a uma muito mais extensa escala de vibrações e as impulsões vidas do alto modelam-no em um organismo mais nobre e mais sutil. Tal corpo está rapidamente se tornando capaz para reproduzir todas as vibrações emitidas pelo Pensador, vibrações estas suscetíveis de expressão nas subdivisões inferiores do plano. O Ego possuirá então um instrumento perfeito de que tem necessidade para desempenhar cabalmente seu papel na região mental inferior.

Uma compreensão muito nítida da natureza do corpo mental seria o bastante para modificar enormemente a educação moderna, tornando-a muito mais útil ao Pensador do que o é atualmente. As características gerais deste corpo dependem das vidas anteriores do Pensador na Terra, fato de que podemos convencer-nos intimamente quando tivermos estudado a reencarnação e o karma. O corpo é constituído no plano mental, e os seus materiais dependem das qualidades que o Pensador em si mesmo acumulou como resultado de suas experiências passadas, Tudo o que a educação pode fazer é proporcionar estimulantes externos de forma a despertarem as faculdades úteis que o Pensador já possui; ao mesmo tempo, deve procurar atrofiar e extirpar as más tendências. Provocar a manifestação de faculdades intatas e não sobrecarregar a memória com uma massa de fatos, tal é o fim duma educação verdadeira. A memória não tem necessidade de ser cultivada como uma faculdade distinta; porque a memória depende da atenção, isto é, a concentração firme de pensamento sobre um determinado assunto que se estuda, bem como da afinidade natural entre este assunto e a inteligência da criança. Se o assunto agrada, isto é, se a inteligência tem aptidões neste sentido, a memória não faltará desde que a atenção seja mantida firme. Eis por que a educação deveria cultivar o hábito de uma firme concentração, duma atenção inabalável, e ser dirigida de acordo com as faculdades inatas da criança.

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Nota:

(a) Pensador: o homem, designado pelo seu atributo mental, por sua capacidade de pensar.

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Nota da autora:

(1) Assim, o teosofista falará de Kama-Manas, significando a mente atuando dentro da natureza-desejo e cooperando com ela, interagindo com a natureza animal. Os seguidores da filosofia Vedanta classificam os dois juntos e falam do Ser como agindo no manomayakosha (veste formada pela mente inferior, emoções e paixões). Os psicólogos europeus fazem dos "sentimentos" uma secção de sua divisão tripartite da "mente", e incluem tanto as sensações como as emoções nos sentimentos.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo V - 19 - Bem-aventurados os Aflitos



O mal e o remédio


19. Será a Terra um lugar de alegrias, um paraíso de delícias? A voz do profeta não ressoa ainda aos vossos ouvidos? Não proclamou Ele que haveria choro e ranger de dentes para os que nascessem nesse vale de dores? Vós, que nele viestes viver, esperai, pois, lágrimas ardentes e sofrimentos amargos, e por mais agudas e profundas que sejam as vossas dores, voltai os olhos para o Céu e bendizei o Senhor por vos ter querido experimentar... Ó homens! Então só reconheceis o poder do vosso Senhor quando Ele vos haja curado as chagas do corpo e coroado os vossos dias de beatitude e felicidade? Então não reconheceis o seu amor senão quando vos tenha adornado o corpo de toadas as glórias e lhe haja restituído o brilho e a alvura? Imitai aquele que vos foi dado para exemplo. Tendo chegado ao último grau da abjeção e da miséria, deitado sobre um monturo, disse ele a Deus: "Senhor, conheci todas as alegrias da opulência e me reduzistes à mais absoluta miséria: obrigado, obrigado, meu Deus, por haverdes querido experimentar o vosso servo!" Até quando os vossos olhares se deterão nos horizontes que a morte limita? Quando, afinal, vossa alma quererá lançar-se para além dos limites de um túmulo? Mas, ainda que chorásseis e sofrêsseis a vida inteira, que representa isso ao lado da eterna glória reservada ao que tenha sofrido a prova com fé, amor e resignação? Buscai, pois, consolações para os vossos males no futuro que Deus vos prepara e a causa dos vossos males no passado: e vós, que mais sofreis, considerai-vos os bem-aventurados da Terra.

Como desencarnados, quando planáveis no espaço, escolhestes as vossas provas, por vos julgardes bastante fortes para as suportar. Por que murmurar agora? Vós, que pedistes a riqueza e a glória, queríeis sustentar a luta com a tentação e vencê-la. Vós, que pedistes para lutar de corpo e espírito contra o mal moral e físico, já sabíeis que quanto mais forte fosse a prova, tanto mais gloriosa seria a vitória e que, se triunfásseis, mesmo que o vosso corpo fosse lançado num monturo, dele, ao morrer, se desprenderia uma alma de resplendente alvura, purificada pelo batismo da expiação e do sofrimento.

Que remédio, então, prescrever aos atacados de obsessões cruéis e de males cruciantes? Só um é infalível: a fé, o apelo ao Céu. Se, no auge dos vossos mais cruéis sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor, o anjo, à vossa cabeceira, vos apontará com a mão o sinal da salvação e o lugar que um dia ocupareis... A fé é o remédio certo para o sofrimento: mostra sempre os horizontes do infinito diante dos quais se esvaem os poucos dias sombrios do presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio que curará tal úlcera ou tal chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê se fortalece com o remédio da fé e que aquele que duvida um instante da sua eficácia é punido imediatamente, porque sente as pungentes angústias da aflição.

O Senhor marcou com o seu selo a todos os que nele creem. O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé como amparo, será colocado sob a sua proteção e não mais sofrerá. Os momentos das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas alegres da eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira do corpo que, enquanto este se contorce em convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando, com os anjos, hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor (1).

Felizes os que sofrem e choram! Que suas almas se alegrem, porque Deus as acumulará de bem-aventuranças. Santo Agostinho (Paris, 1863.)

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Minha nota:

(1) Como um exemplo bem eloquente dessa afirmação, lembremo-nos do que acontece na provação final de Lívia Lentulus, quando martirizada no circo romano, no livro "Há dois mil anos", de Chico Xavier e Emmanuel. Não foi exatamente o que está descrito no parágrafo acima?

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo V - 18 - Bem-aventurados os Aflitos

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS



Bem e mal sofrer


18. Quando o Cristo disse: "Bem-aventurados os aflitos, porque deles é o reino dos céus", não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra, estejam no trono ou sobre a palha. Mas, ah! poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações quando vos falta coragem. A prece é um sustentáculo para alma, mas não é suficiente: é preciso que se apoie numa fé viva na bondade de Deus. Ele já vos disse muitas vezes que não coloca fardos pesados em ombros fracos. O fardo é proporcional às forças, como a recompensa guardará proporção com a resignação e a coragem. A recompensa será tanto maior quanto mais penosa é a aflição. Mas essa recompensa deve ser merecida, e é por isso que a vida está cheia de tribulações.

O militar que não é mandado para as linhas de fogo fica descontente, porque o repouso no campo não lhe faculta nenhuma promoção. Sede, pois, como o militar e não desejeis um repouso em que o vosso corpo se entrevaria e se entorpeceria a vossa alma. Alegrai-vos quando Deus vos enviar para a luta. Essa luta não consiste no fogo da batalha, mas nas amarguras da vida, onde, às vezes, é preciso mais coragem do que num combate sangrento, pois aquele que se mantém firme em presença do inimigo pode fraquejar sob o choque de uma pena moral. O homem não recebe nenhuma recompensa por essa espécie de coragem, mas Deus lhe reserva a palma da vitória e um lugar glorioso. Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e quando houverdes conseguido dominar os ímpetos de impaciência, da cólera ou do desespero, dizei para vós mesmos, com justa satisfação: "Fui o mais forte".

Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, pois terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porquanto, após o trabalho virá o repouso. - Lacordair. (Le Havre, 1863.)